Modernidade e reflexão Livia Rosa Santana 5 de março de 2026 Cultura, Notícias, Rio de Janeiro, Variedades Numa recente viagem de férias, saindo do Rio de Janeiro rumo a Buenos Aires, alguns aspectos da arquitetura dos locais onde aportou durante o roteiro chamaram a atenção da arquiteta Dorys Daher, do conceituado Escritório DG Arquitetura (www.dgarquitetura.com.br), com sede no Rio de Janeiro. No percurso – já conhecido por repetidas vezes – a profissional teve algumas surpresas, que a levaram a refletir sobre o futuro do setor. “Eu tive um choque, ao aportar em Balneário Camboriú. Não ia lá há muitos anos e fiquei impressionada e chocada com o desenvolvimento ultrarrápido que presenciei. Um espelho da Arquitetura e Engenharia do Brasil, onde Camboriú me parece ser o ‘cartão de visitas’, onde se mostra toda a questão de tecnologia, dos prédios mais altos do País que estão lá, de buscarem sempre essa competição diante de outros países”, relata a arquiteta. De fato, a cidade que teve origem numa colônia de pesca e veraneio na década de 1920, nos anos 1960 iniciou a passos largos para se consolidar como um dos principais polos de desenvolvimento urbano, turístico e imobiliário do Brasil. Hoje, a cidade vive um intenso processo de verticalização de luxo, com alguns dos prédios mais altos do País. O município, emancipado em 1964, aposta na valorização do metro quadrado, no turismo, infraestrutura (como o alargamento da praia, por exemplo) e um novo Plano Diretor, previsto para este ano, que visa um crescimento sustentável nos próximos 10 anos. “Costuma-se dizer que, onde há desenvolvimento, muito dinheiro e prédios muito altos, o País é desenvolvido”, comenta Dorys. “Há até uma competição diante de outros países. Tem um lado técnico da construção, e tem também um lado a ser questionado, porque Camboriú era uma vila, uma cidade pequena e de repente virou praticamente a Manhattan brasileira. É impressionante a altura dos prédios”. De fato, Balneário Camboriú tornou-se a cidade das alturas. Para se ter uma ideia, é lá que foi construído o prédio residencial brasileiro mais alto – o Yachthouse by Pininfarina – com duas torres de inacreditáveis 294 metros e 81 andares. E vem mais por aí: está em construção o Senna Tower, uma homenagem a Ayrton Senna, com mais de 550 metros e previsão de conclusão a partir de 2033. A cidade, reconhecida pela “revolução vertical” atrai alto investimento imobiliário e nos últimos 10 anos, o PIB local teve um crescimento nominal de 169%. Dorys Daher reflete que essa condição da arquitetura da cidade, por exemplo, fez com que a praia não tenha mais sol todo o tempo: “Parece que às três da tarde acaba. São muitos e sucessivos prédios altos sem necessidade… É de fato uma composição bonita, mas é muito doido pensar nessa aglomeração de pessoas. Só de olhar dá vertigem!” A arquiteta lembra que há estudos sobre isso, que questionam a concentração de pessoas, porque se libera o solo para mais áreas comuns. Ela faz uma comparação com o Plano Piloto de Lúcio Costa para a Barra da Tijuca, elaborado no final dos anos 1960, que propôs uma cidade moderna baseada em grandes eixos viários e torres residenciais intercaladas com áreas verdes. O plano, no entanto, não foi respeitado. Arquivo PessoalBalneário Camboriú: torres sucessivas transformaram a cidade praticamente na ‘Manhattan brasileira’DivulgaçãoDorys Daher mantém escritório de Arquitetura no Rio de Janeiro comentários